EDITORIAL

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Pais, professores e a ética na Educação

 
 

Prof. Dr. Ítalo Francisco Curcio
Coordenador do Núcleo de Ética e Cidadania da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

 
 

Segundo registros históricos associados a diversas culturas, a Família é uma das poucas instituições cujo modelo passou praticamente incólume ao longo de toda sua existência.

 
 

Independentemente da etimologia da palavra, que apontaria para significados peculiares pela própria evolução do conceito, ressalta-se que a Família aqui discutida é o modelo que ainda hoje perdura na maioria das nações organizadas, a exemplo do que está descrito no artigo 226 da Constituição Nacional Brasileira vigente, no qual destaca-se ser ela, a Família, a base da sociedade.

 
 

Ser base não é simples. Ser base significa sustentação e esta só é possível se for entendida conjuntamente com os termos do artigo 227, pelo qual se conclui que pai e mãe têm o dever conjunto do cuidado e da formação plena dos filhos.

 
 

Basta, portanto, apenas o realce deste “pequeno” trecho da lei maior da nação brasileira para se verificar não só a importância, mas sobretudo o nível de responsabilidade que a família tem na sociedade.

 
 

Se, além deste preceito legal, forem observadas também as tradições culturais, dentre as quais as decorrentes do cristianismo, percebe-se que tal modelo de família será o predominantemente aceito, mesmo por aqueles que não professam tal religião.

 
 

Deste modo, considerando que este modelo é quase consenso, pode-se inferir que, para a maioria da população brasileira, esta é a família vista como essencialmente ética.

 
 

Embora a palavra Ética tenha sofrido certo desgaste na contemporaneidade, seu conceito filosófico, discutido há séculos por pensadores de várias origens culturais, permanece inalterado. A Ética de um povo decorre de sua própria cultura.

 
 

Paralelamente, no tocante à formação do ser humano, existe a figura do Professor, cujo papel social vai muito além de seu significado estrito, apontado pela etimologia da palavra.

 
 

Originalmente, a palavra professor remete ao ato de professar, todavia, não obstante a importância deste ato, o conceito contemporâneo deve ser muito mais rico, devendo ser assimilado como uma tríade especial: aquele que professa, ensina e educa.

 
 

A exemplo da Família e, mais especificamente, dos pais, a legislação brasileira também preceitua a figura do professor com especial destaque, como pode ser visto no artigo 13 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB 9394/96, no qual, dentre as incumbências ali mencionadas, constam o zelo do professor pela aprendizagem do aluno e sua colaboração com as atividades de articulação da Escola com as Famílias e a Comunidade.

 
 

Mediante esta concepção, conclui-se que deve ser natural a cumplicidade entre os pais e os professores durante a formação de uma pessoa. Para os pais, o sujeito mais importante no processo desta formação é seu filho; e para o professor, este sujeito é seu aluno, destacando que, nesta cumplicidade, filho e aluno são o mesmo sujeito.

 
 

Nesse contexto, sugere-se refletir sobre a importância que o processo de formação de uma pessoa tem na sociedade. Processo este que deverá proporcionar a plenitude da cidadania, pautada nos princípios morais e éticos da cultura à qual esta pessoa está inserida. Se não houver a citada cumplicidade, aliada a uma comunhão de princípios éticos e morais entre pais e professores ou, de forma mais ampla, entre Família e Escola, certamente esta formação estará seriamente comprometida. Sem esta cumplicidade, a criança e o adolescente crescerão com dúvidas e incertezas, devido a contradições não solvidas.

 
 

Numa nação plural, democrática e laica, a formação de um cidadão não é simples, pois acima de tudo deve-se observar o respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana. Sob este aspecto, portanto, os princípios morais devem ser acompanhados dos princípios éticos estabelecidos pela cultura social desta nação.

 
 

Em qualquer sociedade, é notória e até necessária a pluralidade de ideias e de diferentes conceitos acerca de determinados temas, sobretudo, quando se trata de assuntos notadamente polêmicos. Porém, os componentes desta mesma sociedade devem ter uma formação tal que suas práticas de conduta sejam discernidas e equilibradas, com respeito recíproco, em função da existência de princípios éticos cultivados conjuntamente pela Família e pela Escola, desde a mais tenra idade.

 
 

Atos como conduzir um automóvel em estado de embriaguez; suscetibilidade à prática da corrupção ou do “jeitinho”; trapaças, roubo e quebras de contrato unilateralmente, dentre outros, poderiam não ocorrer se a formação cidadã tivesse ocorrido de forma consistente, sem ambiguidades. A ideia é a de que pais e professores devem ser o bom exemplo por meio de suas condutas e não apenas pelas suas pregações.

 
 

Embora a proposta contida nesta reflexão possa, talvez, ser vista como utópica, é com o resultado da avaliação de uma utopia que se chega a novos modelos.

 
 

Ética e Cidadania são conceitos inseparáveis, todavia, sem seu cultivo pelos protagonistas da Educação, quais sejam, Pais e Professores, o ser humano cresce sem forma.

 
 

Comenius (1592-1670), em sua “Didática Magna”, intitulou assim o capítulo VI de sua obra: “O HOMEM TEM NECESSIDADE DE SER FORMADO PARA QUE SE TORNE HOMEM”.

 
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