EDITORIAL

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A mesa, a educação e a formação ética

 

Prof. Dr. Ítalo Francisco Curcio
Coordenador do Núcleo de Ética e Cidadania da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

 
 

Sou muito dado a tradições, embora não seja um tradicionalista radical, no sentido filosófico do conceito. Gosto de observar tradições não por caprichos e tampouco por saudosismo, mas por considerar que sou o que sou, inclusive por causa delas.

 
 

Também não sou irredutível a ponto de pensar que todas as tradições são perenes, pois percebo a importância das mudanças e acredito na evolução da sociedade quanto aos seus hábitos e costumes. Afinal de contas, como cientista e professor, não posso considerar que o ser humano tenha atingido seu potencial máximo e que daqui por diante não há mais o que mudar. Confesso que, embora admire muito o legado de Augusto Comte, seguramente não sou positivista.

 
 

Externando um pouco de meus apreços em meio a essas tradições que gosto de preservar, uma que mantenho com especial carinho, com grata satisfação e apreço, é o uso da Mesa.

 
 

Sentar-me à mesa com meus queridos, sejam parentes ou amigos, representa para mim um ato sublime, de grande contemplação.

 

Gosto sempre de lembrar que a humanidade, de modo geral, carrega ao longo de sua história mitos, tradições e símbolos, os quais decorrem de suas experiências e conceitos assimilados nas mais diferentes culturas; e que, embora a população mundial atual já supere os 7 bilhões de habitantes e esteja distribuída por todo o planeta, diversos hábitos e costumes são semelhantes nas múltiplas culturas contemporâneas, bem como do passado.

 
 

Um desses hábitos e costumes é o uso da mesa para diversas finalidades, dentre as quais podem-se destacar a Mesa para as Refeições e a Mesa para Reuniões.

 
 

Esses dois exemplos não foram escolhidos por acaso, mas, especificamente pela simbologia que acompanha o uso da mesa nestes dois momentos, o das refeições e o das reuniões

 
 

Convém frisar que, ao se utilizar a mesa numa refeição em diversas ocasiões, se tem simultaneamente uma reunião. Sentar-se à mesa para um almoço ou jantar, juntamente com outras pessoas que comungam o evento, é antes de mais nada uma reunião, não obstante outras possibilidades, como por exemplo o uso da mesa numa reunião de natureza administrativa.

 
 

De qualquer modo, diversas culturas, do presente e do passado, têm na mesa uma simbologia distinguida, sem a presença da qual, possivelmente, não se lograria o êxito almejado. Enfim, reunir-se em torno da mesa é aliar ao ato uma expressão de natureza sociológica e psicológica, com significados peculiares. De qualquer modo, diversas culturas, do presente e do passado, têm na mesa uma simbologia distinguida, sem a presença da qual, possivelmente, não se lograria o êxito almejado. Enfim, reunir-se em torno da mesa é aliar ao ato uma expressão de natureza sociológica e psicológica, com significados peculiares.

 
 

Porém, a reflexão que faço é sobre a importância que a Mesa teve e continua a ter na educação das pessoas, tanto no âmbito familiar, quanto no social. A Mesa teve e continua a ter um importante papel na formação de um cidadão.

 
 

Particularmente, na família, a Mesa simboliza a comunhão de seus membros. Junto à Mesa ocorrem as refeições e, ao mesmo tempo, se compartilham as alegrias, os dissabores, as preocupações e as incertezas. É na Mesa que se externa o amor ou a indiferença, a paixão ou o ódio. Diversos são os registros na literatura ou nas artes nos quais a Mesa é a verdadeira protagonista.

 
 

Foi numa mesa que se deu uma das passagens mais emblemáticas do cristianismo: a última ceia com Cristo, hoje lembrada por muitos como “A Mesa do Senhor”.

 
 

Para os amantes da música sentimental, certamente, são muitos os que se lembram da composição de Sérgio Bittencourt, Naquela Mesa, imortalizada nas vozes de Elizeth Cardoso e de Nelson Gonçalves.

 
 

Os apreciadores da arte do cinema, de idade um pouco mais avançada, não se esquecem da cena romântica do filme A dama e o vagabundo, em que, junto à mesa e à luz de velas, carinhosamente, os bichinhos vão se aproximando enquanto sugam pelas extremidades opostas um mesmo espaguete.

 
 

Enfim, seriam muitos os exemplos a serem citados acerca da simbologia da mesa!

 
 

No entanto, por inúmeras razões, apontadas por estudiosos e especialistas no campo das ciências sociais, a Mesa não tem sido mais a protagonista de reuniões familiares e daí segue-se a perda do ato solene da comunhão entre os membros desta instituição, que é um dos pilares da formação de um cidadão. Seja por princípio Ético ou Moral, a instituição família não está investida de magna importância somente em nível cultural, mas também legal. Destaco nesta reflexão que, segundo a Constituição Federal Brasileira, a Família é base da sociedade.

 
 

Por ser base da sociedade, a Família tem responsabilidade singular na formação cidadã do indivíduo e consequentemente ética. Desestruturar a Família é desmoronar a sociedade e é nesse momento que a ausência da Mesa passa a ser comprometedora.

 
 

O filosofo Spinoza, em sua obra intitulada Ética, destina uma das partes à reflexão sobre a origem e a natureza dos afetos. Tal reflexão se reveste de relevante importância, pois ele considera que o corpo humano pode ser afetado de muitas maneiras. Este pensador tece longos comentários sobre Alegria, Tristeza, Amor, Ódio, dentre outros temas inerentes ao ser humano, percebendo-se aí que em nível familiar muitos desses conceitos são compartilhados, quando avós, pais, filhos e netos, por exemplo, sentam-se à mesa. Por isso, considero a Mesa um símbolo peculiar, uma tradição que não pretendo perder.

 
 

Certamente, existirão manifestações contrárias à esta concepção, mas, não obstante o sentimento de cada um que comigo refletem sobre este tema, manifesto meu pesar pela perda da Mesa, a perda do ponto de encontro para a formação Ética e Moral no âmbito da família, base da sociedade.

 
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